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June 4, 2024 55 mins

No episódio de hoje do Cadê a Hipótese Ruth?, Paulo Boggio e Gabriel Gaudencio do Rêgo retornam após uma breve pausa para discutir sobre a empatia sob uma perspectiva antropológica. 

Os apresentadores exploram como diferentes culturas ao redor do mundo percebem e manifestam a empatia. Eles discutem as comunidades dos Anutans, Banabans, Tizotzil Maya e outros grupos, revelando como cada sociedade tem suas próprias palavras, conceitos e práticas que refletem o cuidado e a compaixão entre seus membros.

O episódio aborda a "opacidade da mente" e como essa ideia influencia a compreensão da empatia em diferentes culturas. Paulo e Gabriel também discutem a importância da colaboração interdisciplinar entre psicologia e antropologia para uma compreensão mais ampla e rica desse fenômeno humano universal.

Prepare-se para uma viagem pelas ilhas do Pacífico e outras regiões, enquanto os apresentadores revelam como a empatia se manifesta em diferentes partes do mundo.

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(00:00):
Music.

(00:11):
5, 4, 3, 2, 1, 0, all engines running, liftoff, we have a liftoff.
Olá pessoal, bem-vindos a mais um episódio do nosso podcast Cadê a Hipótese Root?

(00:33):
Apresentado por mim, Paulo Bódio E pelo sobrevivente Gabriel Galdêncio Do Rego
Ele sobreviveu Gabriel,
bem-vindo Ao mundo Que retorno, hein, que retorno Fui, Paulo Bódio, e voltei,
E digo mais uma coisa Estávamos parados duas semanas Eu ouvi pedidos,

(00:56):
clamores Para que pudéssemos voltar o quanto antes Atravessei quase o rio Qual o rio lá dos mortos?
Na Grécia, nos limites gregos? Tem um rio desse, não tem?
Atravessei, batei o pezinho na água assim e voltei. Eu falei,
não vou atravessar esse negócio agora. Não tô com preguiça.
Rapaz! Foi feio, hein, cara? Foi, já vi mais bonito, viu? Mas essa aí foi forte. Foi forte.

(01:21):
E você agora tá bem, né? Porque a gente tá nessa sala fechada gravando isso.
Eu não pretendo... Eu acredito que sim, viu? Vamos descobrir na próxima semana.
Esse é o meu sintoma, minha vida, viu? Muito bom, mas isso foi o que? Foi gripe?
Cara, foi uma gripe. Eu falei até pra Lili, falei, Lili, você que já pariu,
parto natural, sem anestesia, agora você sabe a dor que o homem gripado tem,

(01:42):
né? O que você sente quando tá gripado.
Mas a gente lá ficou bem felizes, né? Vamos ver.
Não, foi difícil, foi difícil. Foi a gripe, mas pegou forte, virou pneumonia.
E aí tava querendo virar mais coisa, eu falei, calma. Não vire não.
Não vire não, não tá de boa. E agora tô bem.
Você tá bem? Tô bem. Muito bom. Vou dar um autocininho uma vez ou outra aqui, mas...
Tosse pra lá pronto, melhorei agora mas é isso, pra quem tá escutando o episódio

(02:08):
de hoje, então a gente ficou duas semanas,
sem gravar episódios então pra quem acompanha a gente semanalmente a gente pede
aí desculpas a gente promete criar algum tipo de redundância no sistema importante
eu tentei, Gabriel, nesse período,
selecionar novos parceiros de podcast ah, eu senti que a fila anda, né?

(02:30):
É, a fila anda cara, eu falei assim, bom, vai que ele morre é melhor é melhor que eu morra, cara?
É melhor que eu, né, já vou me preparar, né ah, bom, eu falei,
vai que ele morre é melhor não, vai que você morre é melhor,
mas vai que morre, bom, eu já tô preparado dá pra fez alguma seleção ainda?
Aí eu tentei, cara, eu fiz umas tentativas entrevistei uma galera fiz vários

(02:53):
pilotos aqui a gente fez várias gravações.
Foi muito bom foi legal você viu
que na verdade eu sou altamente substituível, acho que esse é meu poder,
você é muito bom porque qualquer pessoa me troca no momento cara,
foi muito bom as piadas melhoraram
boas eram só boas piadas porque pra mim só sobra o rei eu sempre quero essa

(03:18):
piadinha vocês não gostam dessa piadinha eu sempre quero essa piadinha eu não
vou falar o sobrenome das pessoas que eu entrevistei Porque senão eu vou ofender
as pessoas Pior que meu, sobre o meu Não,
eu tô inventando agora Mas é isso, Gabriel Eu fiz umas tentativas Inclusive, tentei até Ver se a Ruth,

(03:41):
Ela poderia gravar Mas a gente tem uma promessa 10 mil Pessoas ou 10 mil reais,
Não chegou nenhum Não chegou nenhum nem outro ainda,
Então Aí quando eu vi, cara, que ninguém Ninguém se candidatou a gravar.
Os que vieram no seu lugar eram ruins, cara. Os caras eram ruins. Era mesmo.

(04:02):
Muito ruins. Só porque eu derrase. Eu falei assim, bom, vai.
Vamos com o Gabriel mesmo. Vamos rezar.
Aí eu acendi uma vela. Boa.
Dizei muito por você, cara. A vela funcionou. Funcionou. Funcionou.
Aqueles 15 remédios que eu tomei também.
Só deu uma forcinha. Não, foi só uma forcinha. Foi uma forcinha pra você.

(04:24):
Eu queria agradecer, inclusive, o pessoal da Hospital Samaritana. Ah, é?
Poxa, atendimento bom, rápido, efetivo. É mesmo? Foi, foi.
Passaram medicamentos bons, adequados. Ah, que bom, cara. Bacana.
Fico feliz, né? Fico feliz também com eles. Mas muito bom. Mas eu tô brincando, Rafa.
Já mudou o nome, já. Já tava trocando. O Rafael.

(04:45):
Valeu, valeu, Paulo. Brincadeira. Mas então, o João, então...
Mas é o seguinte, Gabriel, é brincadeira não pensei em substituir você é insubstituível
você tá na minha vida há quantos anos?
12 anos isso vai virar uns 30 ainda, vamos ver se tá ok vamos chegar ao ponto,

(05:07):
é só não me passar nenhuma dessas viroses ô Gabriel, mas beleza mas a gente
tá agora aqui de volta no nosso podcast Cadê a Hipótese Ruth.
E estamos aí naquela nossa sequência sobre a empatia já vai na trilogia agora
é a trilogia, é o terceiro dia de empatia, fala uma coisa você,

(05:30):
enquanto estava doente o que você achou?
A gente já discutiu vários lados da empatia, o lado bom, o lado ruim você sentiu os dois lados?
Olha, eu senti na verdade muita coisa não, eu senti muita fé,
muito cansaço empatia eu senti, eu senti o cuidado da Lidy, foi melhor da família,
Eu senti uma empatia inicial de falar, pô, o cara tá morrendo, né?

(05:54):
Mas eu também senti depois um pouco do cansaço ainda do meu sofrimento, né?
Entendi. Eu tava sofrendo, não, eu sei que cansa os outros mesmo.
Senti aquela história da angústia pessoal, o cara vindo aqui.
Dá uma cansada, né, o sofrimento aí. Aquela ideia da pessoa tá sintonizando
com você, tá vendo você mal e vai ficando mal.
Vai ficando mal, cansado. E aí, entre aquelas discussões que é engraçado que

(06:15):
ela falou, né, que as pessoas ao redor falam assim, pô, cara,
tem que dar o gás, melhora aí, já tá uma semana já, essa gripe já passou e tal.
Só que o pneumonia não sabia, né. E ele falava, cara, não tô melhorando.
Aí ela depois ficou mal, falou, não, bicho, desculpa e tal, não sabia que você
tava com isso. Falei, não, de boa.
Mas é esse lugar de você ver que parece que dá esse contágio dessa energia,

(06:37):
do sofrimento, do cansaço mas eu sou muito bom, eu acho que eu sou muito bem tranquilo e Gabriel,
nisso que você está falando é uma coisa interessante, porque a pessoa vai e
acha, bom, vamos melhorar aí já deu e tal só que ela não está.
Conseguindo entender você inteiramente, porque ela não consegue ler tua mente
ela não consegue ler completamente,

(06:59):
mas eu acho que essa questão é interessante porque começa assim,
ela vai a entender inicial,
porque ela vê que a pessoa tá sofrendo, ela entra nessa mesma frequência de
entender, pô, tá cansado, e a partir disso vai tentar entender as necessidades
que eu tenho, e vai atendê-las, então é esse cuidado inicial é legal,
mas tem um ponto também que chega um momento das necessidades dela, né? Sim.

(07:19):
E aí que começa, na verdade, com o doente, cansado, atrapalhar, criança pobre, etc.
Claro. E aí você vê que começa a falhar essa perspectiva do doador.
Não é que falha, assim, começam algumas demandas das pessoas se tornam maiores,
mais emergenciais, eu acho.
E aí você falando da empatia, eu fiquei pensando nisso, a empatia ela funciona,
mas é também situacional, né?
Chega um ponto às vezes que você tá com pressa, tá sem tempo pro outro.

(07:42):
Então aquela questão, alguém pede alguma coisa na rua, às vezes você fala,
pô, vai ser um mal danado ajudar essa pessoa, cara. Um colega que faz um pedido
bem complexo, você fala, meu Deus do céu.
E aí esse lugar depende dos custos pessoais, né? Então acho que isso ficou meio
aparente também. Pois é.
É, então você acha que a compreensão sobre o teu sofrimento ela existia,

(08:04):
mas começa a ter um custo alto e com isso também não necessariamente todo mundo
vai ajudar o tempo inteiro?
Chega um exemplo, você tá num ambiente de trabalho e alguém tá com problema,
você fala, vou tentar ajudar, você dá, às vezes uma ajuda direta,
de conversa uma ajuda material às vezes dá uma permissividade da pessoa falar,
não, precisa vir e tal e você vê que a pessoa depois volta um segundo semana

(08:27):
com o mesmo problema terceiro semana, chega um ponto que você fala,
peraí já deu, né? Já deu, né?
Então é esse lado da empatia, não claro que você ficasse doido de verdade,
certamente vida e cuidaria da minha família, mas acho que existe um movimento
maior que as pessoas vão fazendo coisas,
trabalhos, demandas e aí chega um ponto também que as pessoas elas querem ajudar

(08:49):
as outras, mas até o ponto que a ajuda seja funcional, se você vê que não está
funcionando depois de uma, duas, três semanas,
como já existiu com colegas de trabalho, por exemplo que moram em ferimentos
você começa a ficar angustiado e aí a tendência é a contrária,
você fala ah não, vou ajudar mais,
eu vou me afastar inclusive você até se afasta, porque a gente discutiu no episódio
sobre os trabalhos do Paul Bloom a gente falou bastante sobre isso,

(09:13):
agora, Gabi hoje acho que a discussão que a gente pode fazer além dessas que
a gente começou e vai chegar nisso automaticamente.
Quanto também sobre isso que a gente fala, sobre a situação sobre empatia,
tem muita relação com até uma visão ocidental sobre o mundo e sobre as pessoas,

(09:34):
o quanto ela é precisa ou não. O que eu quero dizer com isso?
O quanto de fato a gente consegue, entre aspas, ler a mente dos outros ou não?
O quanto de fato a gente consegue se colocar no lugar do outro ou não,
a ponto da gente entender completamente o sentimento alheio e sentir essas coisas

(09:56):
que a gente está discutindo de empatia cognitiva e empatia afetiva.
E aí o episódio de hoje a gente vai navegar um pouquinho na discussão da antropologia da empatia.
Olha que legal. Acho que é um caminho legal para a gente ver como que é empatia em outras culturas,
em outros povos em locais onde na linguagem a palavra empatia inclusive nem

(10:22):
existe porque essa é uma discussão interessante,
se não existe a palavra, se não existe a definição do conceito como que se manifesta
o que é empatia para povos que não tenham a palavra será que todo mundo vê do mesmo jeito.
Mas é uma discussão interessante isso que não tem a mesma palavra diretamente,

(10:43):
mas deve ter algo parecido eu acho, imagino, né parece que sim porque essa discussão
do saudade no Brasil você vai falar, saudade só se tem no Brasil que fala saudade a palavra,
o sentido que a palavra engloba você tem vários termos no inglês que fala tanto
quanto que todo mundo sente saudade, eu acho mas será que o jeito eu imagino que sim,

(11:05):
mas será que o jeito que a gente define a forma como a gente expressa,
ela acaba não tendo realmente essas variáveis culturais, contextuais e que.
Isso faz com que a gente até tenha uma visão de mundo diferente ou uma visão
de quem é o outro diferente,
ou até a capacidade da gente entender o outro de uma forma diferente,

(11:27):
e aí a gente precisa não mais só dos psicólogos, mas a gente precisa dos antropólogos
é verdade, é verdade e tem uma lenda de estudos muito forte nisso da relação
da linguagem com o pensamento, e essa diferença cultural,
eu acho que tem semelhanças, acho
que a cultura vai dar essas impressões e expressões diferentes mesmo, viu?

(11:47):
Vamos falar um pouco de antropologia e empatia. Vamos nessa linha aí.
Essa questão da empatia, pra gente ver, né, a gente que é da psicologia e das,
neurociências e quem é de outras áreas e quem nem é de nenhuma área dessas,
meio que dá como certo que existe empatia e empatia é um construto.

(12:10):
Relativamente bem definido.
A gente já viu que não é exatamente assim, mas que é um construto ok,
Ok, tem empatia afetiva, empatia cognitiva e tal.
Mas aí quando a gente vai olhar pra outras áreas, não necessariamente essa é a visão dominante.
E quando a gente vai olhar pra antropologia, são poucos os estudos que falam sobre empatia.

(12:33):
Interessante isso. E assim, o fato da gente já estar no terceiro episódio é
porque deve ser importante, né? É, eu acho.
Tanta gente estudando empatia, tanta gente falando sobre empatia,
as suas várias perspectivas, o lado bom e o lado ruim,
mas de repente vai olhar para a antropologia e de fato você não vê muitos estudos falando sobre empatia.

(12:55):
E aí alguns autores começaram a discutir.
Primeiro, será que é importante se estudar a empatia nos estudos antropológicos,
etnográficos, toda essa coisa aí?
Por que será que não tem muito estudo?
Se a gente for lembrar, por exemplo, no caso da psicologia, durante muito tempo,

(13:16):
falar sobre emoção em psicologia era um certo problema, por mais absurdo que
seja, mas com a tentativa da psicologia virar ciência,
se firmar com ciência no começo do outro século, fez com que os estudos em psicologia
se afastassem das emoções, afinal, era algo de domínio interno, às vezes não tem acesso,

(13:38):
subjetivo e tal e só recentemente é que passou a ser,
levado a sério dentro da ciência e na antropologia é algo mais ou menos nessa linha,
então alguns autores meio que colocaram a empatia de uma forma que ela realmente
não era um tópico de estudo importante um desses autores é um antropólogo bem

(14:00):
renomado que é o Clifford Geertz esse é um dos caras que,
o argumento dele ele era o seguinte, que.
Estudar empatia pode simplesmente estar revelando mais da projeção do sentimento
de alguém sobre o outro do que do próprio sentimento,
né, então meio que é muito mais uma interpretação, poderia ser muito mais uma

(14:22):
interpretação equivocada sobre o outro do que de fato algo relevante e importante
a respeito daquela pessoa que está passando por alguma,
coisa, o que por um lado e já está até atrás de uma questão.
Isso não deixa de ser... Mesmo supondo que isso seja a verdade,
é uma dimensão bem importante.

(14:44):
Claro, eu acho que ele está se eximindo do trabalho aí.
Ele trabalhou bastante. Mas ele trazia um pouco nessa linha de que era uma discussão
do quanto estudar a empatia era válido se a gente...
Olhar essa empatia como algo que fala muito mais sobre o sujeito,

(15:05):
projetando os seus sentimentos no outro, do que do outro claro,
pra mim isso é muito válido mas a gente vem da psicologia, eles estão ali olhando
agora desse ponto de vista mais antropológico e esse camarada achava que não era,
muito isso, e aí junto com isso essa história que ele traz muito problema de
definir a empatia e ter clareza no conceito, que a gente da psicologia já vem

(15:28):
falando, é difícil mesmo.
E aí isso também acabou afastando um pouquinho mais dos estudos e também essa
questão da linguagem, né?
Como entender exatamente o que é empatia pra esses.
Povos, mas ultimamente tem tido uma mudança muito grande e alguns autores têm
trazido esse tópico de uma forma um pouquinho mais clara, mais objetiva e a gente vai ver isso aí.

(15:54):
Nessa discussão toda que tem sobre a questão da empatia, existe uma discussão
na antropologia bem legal,
que é a da opacidade da mente que é a ideia da opacidade da mente que é um conceito
bem central qual que é a ideia da opacidade da mente?
Ela vai se referir a ideia de que pensamentos, sentimentos e intenções de outras

(16:14):
pessoas não são facilmente.
Acessíveis e aí a história toda se ele não é acessível ou ele não é,
transparente essa noção acaba implicando que
a mente do outro em algum grau é um
enigma é um enigma e isso dificulta

(16:35):
com que eu tenha uma leitura sobre os estados internos
do outro essa é um pouco a ideia o
que muitos autores começam a fazer é estudar esse tópico de opacidade da mente
em diferentes regiões e povos então seria tão fácil seria acessar esses estados

(16:55):
metais e tal seria alguma coisa então por exemplo,
qual o fácil é saber o que você está pensando agora,
a outra pergunta é não é fácil e talvez nem seja desejável que é o que a gente
vai ver de alguns povos que para alguns povos é até problemático eu achar que

(17:15):
eu posso saber o que você está pensando, sentindo,
vivendo e às vezes é até perigoso.
Se eu conseguir eu posso ter poder sobre você é porque também tem a questão
assim se o cara for um pesquisador e vai pra cultura dessas,
diferentes, ele tem que tentar entender o fenômeno de forma objetiva e aí ele

(17:36):
tem que saber, beleza será que existe empatia, digamos,
será que fulano A daquela tribo tá conseguindo entender o fulano B mas isso
presume que o pesquisador tem que saber o que o fulano B tá pensando pra saber
se o A tá pensando igual exato então tem essa dificuldade, tipo,
da questão de Será que ele realmente entende que... E aí, como que você faz isso?
Sendo que boa parte das ferramentas que a gente tem agora da psicologia,

(17:57):
elas foram desenvolvidas pra...
Povos ocidentais de regiões industrializadas e blá blá blá, como que a gente
adapta essas coisas todas e como que se observa então tem várias discussões
nessa linha e a gente vai ver um pouquinho cada povo fala, o que você está pensando?
Se eu fosse um antropólogo eu investigaria, por exemplo, alguns tipos de rituais

(18:21):
que presumiriam a existência de relações empáticas como, por exemplo, funerais,
morte em outras culturas como é que o grupo se comporta em situações dessas,
porque seria facilmente perceptível, talvez questões de contagem emocional,
as relações de cuidado com aquela pessoa que se relaciona com a pessoa que morreu,
acho que seria uma dica boa pra antropólogo, vai ter um homem ouvindo aí vai

(18:43):
ter, é só interessante é, eu acho que eles já fizeram isso sabe que você,
a cara chura tá investindo na roda mas aí você pode prestar empate,
que é partir, por exemplo, do funeral então é isso, mas essa que é a questão
de um ponto de vista objetivo,
você está presumindo,
algo como a empatia a partir da observação de um ritual não necessariamente

(19:07):
você sabe se o que a gente está falando é o mesmo tipo de empatia.
Que...
Não sei se é o mesmo, mas sim, algumas definições tipo de contagem emocional,
por exemplo coisas nessa linha,
você se comportar diferente com a pessoa porque você sabe que ela está sofrendo,
isso é a nossa empática cognitiva, então assim se você perde alguém Não importa

(19:28):
qual lugar, qual cultura do mundo Se você vê que as pessoas do grupo Começam
a se comportar diferente Você presume que elas estão entendendo Que ela está
em um estado mental diferente E consegue adaptar,
comportamento pra isso seria sempre uma aproximação,
indireta a gente vai ver vários povos, vários grupos e o que foi achado mas

(19:50):
já pra chegar direto nesse teu ponto trazer aqui um grupo que foi muito.
Estudado por um sujeito chamado Feinberg é um antropólogo vivo e tal ele ficou
muito tempo morando numa ilha muitos dos estudos, pra quem tá escutando muitos
desses estudos antropológicos eles vão pra ilhas,

(20:11):
porque normalmente é o local onde tem menos contato com,
cidades mais urbanizadas estão mais isolados ainda enfim, tem uma prainha também
sempre é bom então você tem essas comunidades isoladas enfim,
hoje em dia são menos, mas tem, mas boa parte dos estudos antropológicos,

(20:32):
boa parte, uma grande parte é feita com essas comunidades, principalmente das
ilhas do Pacífico, tem muito estudo com esses grupos.
E o Feinberg olhou muito um grupo que são os Anutans, o grupo dos Anutans.
E uma das coisas que ele começou a observar, a primeira coisa que ele verificou
é que não existe na língua deles um termo para empatia.

(20:55):
Posso perguntar só de onde fica os Anutans?
Então, Gabi, boa parte desses estudos são feitos em ilhas no Pacífico,
e no caso dos Anutans é uma comunidade polinésia que fica nas ilhas Salomão
Salomão Island Salomão Island,
e muitos dos estudos eles acontecem nessas ilhas, nessa região e uma coisa então

(21:20):
interessante que o Feinberg começou a observar é isso, eles não tem.
Descritores, palavras para empatia mas ao mesmo tempo ele começou a perceber,
alguns outros termos e situações que sinalizavam isso que você estava falando
agora a pouco que parece que a pessoa,

(21:42):
entendia o outro, ajudava o outro enfim e aí ele identificou uma palavra que é Aropa,
Aropa e que se a gente for olhar em outras ilhas, por exemplo,
tem Aloha no Havaí, tem várias,
variações de aropa, na verdade é essa, a origem, inclusive ela tem.

(22:05):
Não é piada, né?
E aí, uma das coisas que ele identificou é que no final das contas,
aropa não é uma definição precisa de empatia, não é uma palavra,
não é um sinônimo de empatia, mas olha só que coisa interessante,
aropa aparece em vários contextos em que sinalizam, por exemplo amor, piedade,

(22:27):
compaixão ajuda se a gente juntar tudo isso daqui você começa a chegar numa
determinada definição de empatia que envolve,
Perceber o outro, entender a dor, ajudar.
Então, tem até um combo de emoções sendo evocadas e representadas pela mesma palavra.

(22:50):
E uma das coisas que o Feinberg traz muito interessante no caso dos Anutans,
é que eles, inclusive, usam esse termo Aropa como uma forma até de identificar os laços de parentesco.
Então, assim, pra eles é muito importante a pessoa demonstrar a aropa.

(23:10):
Que é isso, é demonstrar cuidado, demonstrar ajuda.
Os laços, inclusive, sociais, eles são, nesse caso, nesse grupo,
eles são constituídos no entorno dessa... Da aropa. Da aropa, exatamente.
É o que, é meio que aquilo que a gente discutiu uma vez, né?
Da empatia é uma cola social e algo nessa linha, né?
Que a gente viu que por um lado é, por outro tem problemas e a gente vai ver

(23:33):
que no caso deles também tem problemas
aqui também ela funciona como essa amarração dos vínculos sociais,
então demonstrar a Europa nessa comunidade é algo bem importante é uma emoção
bem forte bem importante nessa história toda que na verdade é uma questão,
em outras sociedades, inclusive a nossa também, você vê alguém integrando um

(23:54):
grupo por exemplo, que trabalha aqui e você vê que se essa pessoa é capaz de
percebem as demandas do grupo necessidades, seria um tipo de aropa também vai
ser bem incluída vai ser bem incluída,
e aí uma das coisas que o Feinberg também descreve e aí que vai ficar interessante,
porque a gente fez toda aquela discussão sobre a empatia no episódio no primeiro

(24:15):
episódio de Empatia e no segundo, mostrando lados.
Positivos e lados negativos e a observação do Feinberg quando ele ficou no,
Kusanutans, traz exatamente os dois lados demonstração de Aropa mostrando essa
relação de parentesco o papel dos vínculos e tal e uma das coisas que eles colocam

(24:36):
que Aropa não é demonstrada para aqueles que não tenham laços.
Sociais, pessoais muito pelo contrário, tem
uma passagem inclusive que o Feinberg traz na descrição desse
grupo que inclusive eles são
muitas vezes até incentivados não só
não demonstrar a aropa para o estrangeiro como não ter vamos chamar de escrúpulo

(25:02):
moral então eles veem o estrangeiro que chega lá na ilha deles muitas vezes
como pessoas Pessoas violentas, irresponsáveis.
E aí dessas pessoas eles estão, inclusive eles têm direito de tirar vantagem pessoal.
E o que seria a vantagem pessoal? Ou seja, você poder abusar.

(25:24):
É, qualquer coisa. A sua tapa da cabeça.
Sei exatamente como eles abusam. O Feinberg sofreu isso.
Não, ele foi arropado. Ele foi arropado. Então olha só uma coisa interessante.
Então aqui a gente tem, numa comunidade não tem um termo específico pra empatia,
tem um termo que representa,
dependendo da situação, pode ser interpretado como amor, dó,

(25:47):
piedade, compaixão, ajuda e que é percebido quando é com relação de parentesco
mas não quando não é relação de parentesco e muito pelo contrário,
isso de certa forma é o que a gente quando tá fazendo psicologia.
Observa quando a gente tá falando de daquela empatia afetiva que é demonstrada
pra aqueles que são do nosso grupo, por exemplo, e não para aqueles que são de outros grupos, né?

(26:09):
E aí é que vai ficando interessante essa discussão que tem que ser cada vez
mais interdisciplinar, né?
Da gente olhar a empatia e olhar os vários construtos que a gente tem na psicologia,
mas também trabalhando em conjunto com outros outros... Então,
aqui é uma ideia bem interessante que vem dos anotanos, né?
Então, essa ideia de... O que vai permitir, então, a gente entender quais são

(26:34):
os construtos seriam diversas em humanos e de que maneira questões culturais
poderiam influenciar tais aspectos, por exemplo.
Como empatia. Me parece algo bem universal, me parece, acho que é,
depende dessa capacidade de interpretar o outro, e isso está por trás por exemplo,
de qualquer coisa como ação conjunta, como processos colaborativos,

(26:57):
mas aí realmente essas nuances, né.
E assim, assim como a gente vai ver uma diferença de linguagem nos povos,
tem uma diferença de linguagem nas áreas, e aí as áreas acabam às vezes achando
que não dá pra estudar empatia por isso ou por aquilo, porque...
É, o primeiro que falou, tipo assim, mas é questão da projeção, É, parte,
pode ser exatamente isso Isso é um problema Mas só que ele parte talvez de uma

(27:20):
definição inicial E pra ele é impeditivo De fazer isso,
É mais ou menos por isso que eu trouxe a ideia Mais ou menos a psicologia no
começo do outro século Claro também Se afastando dos estudos sobre as emoções
É uma questão de paradigma As pessoas tendem a fazer ideias como se fossem basilares
Falam, não dá pra fazer isso não,
Exatamente Ninguém desenvolveu ainda a ideia certa E aí além do Aruba temos

(27:43):
mais coisas Tem mais coisas, tem mais coisas.
Tem uma outra comunidade bem interessante também que é a dos Banabans.
É um outro grupo também das ilhas do Pacífico, bastante estudados.
Um dos autores que estudou muito os Banabans foi o Alfred Herrmann.

(28:04):
Ele fez vários estudos com os Banabans. Os Banabans, eles são.
Da região da Oceania, da Micronésia mas eles estão vivendo em Fiji desde 1945
eles saíram da região de origem e eu já vou explicar o porquê e o porquê tem muita relação,

(28:26):
com a forma como se dá o vínculo com o outro não foi vulcão não,
eu sempre acho que é vulcão eles foram pra Fiji né eles fugiram de Fiji,
vulcão também é o mesmo motivo é o mesmo motivo no caso dos panabãs,
Uma das coisas que se observa, de novo, não tem um termo específico para empatia,

(28:51):
mas tem um termo muito interessante que é o tenanuanga.
Tenanuanga. Eu não sei se fala desse jeito. Mas vamos falar agora.
Tenanuanga. O tenanuanga, esse termo, se ele for decomposto,
ele basicamente teria uma tradução mais ou menos como assim,
dar ou doar o coração. Dar o coração, sabe?

(29:13):
Que bonito isso. bem bonito, tenanuan e aí esse termo assim como aquele aropa
ele engloba várias coisas ele engloba amor,
ele engloba compaixão, ele engloba preocupação ele engloba piedade e ele implica
algo que é uma disponibilidade em ajudar o outro que está em necessidade por

(29:35):
isso que vem essa ideia de dar o coração então não é só a piedade a percepção do outro da dor,
enfim fim, mas é também se colocar à disposição da ajuda do outro.
E aí é muito interessante porque Tena Noanga, pra esse grupo,
faz inclusive parte de quem eles são, do como eles se veem.

(29:58):
Então, eles valorizam muito Tena Noanga quase como um etos, sabe?
Faz parte deles, né? Tem que fazer isso com os coleguinhas.
Tem que fazer, tem que demonstrar.
A atenção, você, novamente, é uma cola social, né?
São as gênesis que são de cooperação e colaboração que tendem a aumentar essa relação social, né?

(30:19):
Exatamente. Tem na Nuanga. Tem na Nuanga que no inglês o...
O Herman meio que colocou como hard giving, né? Então, essa coisa da doação
mesmo do coração para o outro, enfim.
E uma das coisas interessantes é que eles têm essa ideia toda de doação e de ter na nuanga e de ajuda.
Isso fala muito sobre a própria hospitalidade deles.

(30:43):
Então, diferente do que a gente falou agora há pouco para o Aropa, nesse grupo,
o estrangeiro, que normalmente quando chega numa ilha está em necessidade,
ele é ajudado e eles cuidam e eles tem muita hospitalidade então aqui a gente
está vendo uma dentro do que a gente está muitas vezes chamando de empatia,
amplificada para além do próprio grupo então tem

(31:05):
uma preocupação e um cuidado com o outro e eles valorizam muito isso mas isso
fez com que eles sofressem golpes porque parte da história deles terem saído
da Micronesia para Fiji foi porque a região deles é rica eu não me lembro agora
exatamente qual é o minério tem?
E aí começaram a chegar pessoas que a princípio eram pra explorar e eles receberam

(31:31):
e a forma como eles receberam acabou deixando eles vulneráveis eles passaram
a ser explorados e quando eles viram eles tiveram que deixar a própria terra,
tanto que na cultura deles tem uma série de músicas e dos jovens ainda mantém
até agora de sair da terra e de meio que,

(31:51):
cantar um pouco essa coisa da piedade e uma delas é mais ou menos algo que é
eu não lembro exatamente a letra mas é uma coisa que fala da piedade,
da dó com relação aos ancestrais que não entenderam o que que era o dinheiro,
caramba então tem toda uma.

(32:13):
Narrativa que eu digo uma comunicação, uma transmissão oral,
contando um pouco essa coisa dos antepassados que não entenderam a dimensão
do dinheiro e a hospitalidade deles acabou deixando com que o espaço fosse invadido
e que eles fossem explorados o resultado que você fala assim,

(32:35):
aí você vai ver a gente fala da psicologia,
teve um grande, uma grande base na Europa, né, e muito europeu chegou lá nessas
ideazinhas e não tinha tina no hongo, não.
Não tinha um menor tina no hongo? Nem em Europa, nem nada.
E se chegasse os banabãs na Europa, também não teria pênis.
Por isso que essa ideia, agora é o lado que a gente fala, tem as questões universais,

(32:58):
mas tem as questões culturais, né?
Porque você vê uma comunidade como essa, tá um pouco diferente da outra,
muito diferente da nossa.
E é muito mais grupal. Nesse caso aqui, e eles sofreram por isso,
a hostilidade era um fator importante. Deixa eu trazer para a tua reflexão que
os barabões me fizeram aqui agora. Faça.

(33:19):
Será que o dinheiro acaba tendo um ângar?
Será que o dinheiro atrapalha o Europa?
Será que a classe econômica, social, será que muda essa questão da empatia, por exemplo?
Então, Gabi, essas são discussões que se tem, inclusive, de visões de mundo

(33:39):
e de posicionamento sobre modelos econômicos, enfim, qual é o peso dessas coisas todas, né?
Vamos trazer isso para outro episódio? Eu acho que é bem legal isso, é uma discussão bem boa.
Parte tem você está trazendo na parte mais econômica do dinheiro,
mas a gente pode trazer até uma coisa mais ampla que é o valor subjetivo de

(34:01):
alguma coisa ele pode comprometer as relações ele pode comprometer o vínculo, enfim é interessante,
porque fica essa discussão na psicologia de, por exemplo, alguns valores quando
são culturais você não tem uma relação que nossa sociedade tem que tudo de certa
forma pode ser entendido dentro do valor econômico qualquer coisa você pode

(34:21):
atribuir um valor um órgão,
uma pessoa e é como se a gente criasse essa capacidade de transnacionar tudo
dentro da lógica da economia os trinanólogos não,
e por isso não conheci inclusive o dinheiro nesse sentido,
certamente tem o queixão de algum tipo de valor,
de algum tipo de moeda mas esse dinheiro como algo além da relação da humana,

(34:43):
o dinheiro como algo maior e os trinanólogos perderam a casa eles perderam eles
perderam a moradia é muito dessas questões de empatia,
quando a gente vai olhar nesses grupos
elas trazem uma discussão muito interessante que é a empatia como ação.
Então, e aí isso tem muito a ver com o que você está falando,

(35:05):
porque entra uma discussão de valor.
Então, para alguns, por exemplo, a empatia como ação está muito relacionada,
por exemplo, a você dar abrigo para alguém. Claro.
E para muitos ela está relacionada com alimentação.
Isso é importantíssimo. Então, você fornecer alimento é algo importante, né?
Então, esse tópico que você está falando do valor que tem as coisas,

(35:30):
para muitos, essa é a ideia do alimento.
O que a gente está oferecendo para os outros que faz com que eles sejam cuidados,
sejam recebidos, enfim.
Então, essa é uma discussão também bem importante.
Então, tem várias comunidades que a parte da alimentação é fundamental.

(35:54):
É uma troca material e aí fica muito curioso quando a gente discute essas coisas
dos dois lados da empatia porque em algumas comunidades,
por exemplo a empatia é percebida exatamente
na oferta de alimento pro próximo e ao mesmo tempo ela é percebida no sentido
inverso pela recusa em oferecer comida isso e aí é que a coisa vai ganhando

(36:19):
aquele contexto do que a gente já falava então, se você está trazendo do dinheiro,
nesses casos, por exemplo um valor importante é a comida, e aí em alguns grupos
você observa isso, as pessoas que não são.
Que não fazem parte, ou não são percebidas como fazendo parte de um determinado
grupo, elas, por exemplo,
não, elas, elas, é recusado oferecer comida, por exemplo, a elas,

(36:44):
né, então a comida, então assim, a comida ela traz aquela ideia da comida como
amor, como cuidado, como preocupação, que é a sobrevivência, elemento,
básico, e no caso dos que não fazem parte do grupo, você não oferece, você recusa.
Não sei se tem tudo sobre isso mas as observações que eu sempre fiz na minha

(37:07):
vida o tipo de ação que eu acho que é ofensiva em qualquer cultura,
você vai numa roda de uma mesa, dentro de um ciclo social.
Vejo muito restaurante, todo mundo recebe um pratinho e esquece um seu, por exemplo cara,
isso é uma coisa como que é que todo mundo faz?
Você tá no restaurante, faz uma roda de pessoas, chega lá e as pessoas pedem um prato pedem?

(37:28):
E aí chega lá a comida de todo mundo e de repente o garçom esquece o seu cara,
isso é tão triste, né assim,
é um momento da minha loja de tristeza meu white people problem mas assim,
pensando que é uma questão básica, você dividir, por exemplo um momento de comida,
por exemplo qualquer cultura que você tenha a ideia aqui no cristianismo é a

(37:48):
ideia da divisão do pão, né e se alguém que você não recebe você esquece o dinheiro
isso é pesado tanto que pra quem tem restaurante ter.
Um dos piores erros que se tem é na hora de servir comida, você esquecer o prato
e o prato. Isso é um das piores.
Você já recebeu alguém na sua casa pra jantar e deixou de servir alguém?
Não, eu acho isso muito ofensivo. É muito ofensivo. Muito ofensivo.

(38:11):
Não, não faria isso não, não faria. Isso tem essas questões.
Isso aqui pra algumas culturas, inclusive, é aquela ideia da mesa farta e de
receber todo mundo. A ideia do Thanksgiving, né?
De sempre ter um lugar à mesa pra quem chegar, né? Pra quem vier.
Essa é a questão da comida e o outro é que tem até o Game of Thrones expor um
pouco, a questão do casamento meio de sangrento lá, que a ideia era você receber
alguém, alguém na sua casa comete um crime contra você.

(38:32):
E aí, você lembra do chicharro do Oswana Bancho? Do termo?
Tem na Nuanga. A ideia é de que na cultura foram os incas, eu acho.
Que os espanhóis chegaram e os incas receberam e o imperador recebeu os caras em casa.
E eles contam aos espanhóis com a história de Passinós, conseguimos dominar

(38:55):
e subjugar 3 mil pessoas com 200 espanhóis os caras estavam na casa do imperador,
foram convidados a entrar, comeram da casa do cara,
ele dá de dentro sequestra o cara, mata os principais,
cabeças lá dentro do império do cara e domina enquanto isso for só uma vitória
eu acho uma das maiores histórias de violência que eu já ouvi,
É, porque ele abusa da boa-fé do hóspede, do hóspede, não, do... do...

(39:22):
Do anfitrião, que é essa a ideia.
E por isso que muita gente escute o quanto tem de cultural ou universal o fato
da gente ser cismado com o de fora, né?
Com o que não faz parte do teu grupo, porque muitas vezes você vai poder ter
atos de traição. Isso é pesado.

(39:42):
Por exemplo, no... não seria tão traição porque não seria o seu próximo, né?
Você tá dando abertura você pôs ela pra dentro da tua casa e ela agora vai ir
contra você isso é um crime é, por isso que muito.
Das questões morais quando existe traição ela é muito mal vista, né?

(40:03):
Tem essa questão também legal que vale a pena depois pensar sobre a questão
dos crimes em outras culturas também na antropologia, a perspectiva do crime
na antropologia é interessante porque existem alguns crimes que são universais também, lembra?
Exatamente, acho. Uma outra coisa que tem muito a ver com isso que você estava
falando agora, Gabi, aí é de uma comunidade no México, em que eles também estudaram

(40:25):
bastante, que são os Tizotzil Maya, né?
E nesse caso aqui, pra esse grupo, eles acreditam nessa coisa da opacidade da mente, né?
Ou seja, essa ideia de que não dá pra entender o outro, e mais ainda,
numa ideia é quase que de uma opacidade social ou seja, qual que é pra eles

(40:46):
o ponto todo é que o que é publicamente,
demonstrado, não necessariamente reflete o que a pessoa tá pensando, e na verdade é.
Boa parte serve para encobrir o que a pessoa tem de negativo contra você.
Então, essa visão agora de ocultar sentimentos negativos contra o outro,

(41:07):
meio que como proteger, e eu não tenho como ter acesso a isso.
Então, tem toda aquela coisa da polidez, que a gente discute muito no dia a
dia, ser educado com a pessoa, mas não necessariamente a educação está transparecendo
o que você tem de real intenção.
E eles discutem muito esse ponto da opacidade meio como uma questão para ocultar

(41:31):
esses estados internos.
E ao mesmo tempo valorizando a cortesia, a educação como uma forma de manter
minimamente um equilíbrio social.
Mas aí não teria nada de não ter na lua não. Não tem, não.
Mas essa é a ideia da opacidade. Então assim, você vai verificar eles fazendo

(41:55):
algum tipo de atribuição sobre a intenção do outro, mas em geral eles acreditam muito nessa,
opacidade, né, que não tem como saber, até porque muitos vão estar,
na verdade, querendo camuflar seus sentimentos negativos, né.
E na verdade isso existe também na nossa cultura, né, então é uma nuance também
desse processo da empatia, né, porque a gente vai tentar inferir a ação do outro,

(42:20):
mas claro que o princípio básico é a incapacidade disso, tanto que a teoria
é uma teoria porque a gente não consegue saber na prática sempre vai ser uma
teoria por isso que até a teoria é uma teoria exatamente.
Tem outro grupo também bastante estudado na região da Papua Nova Guiné,

(42:42):
e aí tem o Roger Lohmann, esse camarada estudou muito um grupo que são os Asábanos
eu não sei se fala desse jeito em português a sabana,
enfim e aí ele traz também uma discussão sobre os assabanos e assim como os
outros que a gente falou eles também não tem uma palavra pra empatia,

(43:05):
essa comunidade acredita na ideia da opacidade da mente, de que não dá pra aliar
a mente do outro mas ao mesmo tempo eles valorizam uma coisa que a gente poderia chamar de,
conexão emocional e eles tem uma expressão pra isso que é um conceito chamado,
Sossat, que se a gente quebrar essa palavra, ela
quer dizer coração com mais ou menos é que o tetanoanga você tá dando coração

(43:33):
nesse é um coração com isso é bem emprestado que coisa legal desse caso do coração
com eles tem uma ideia quase que de uma empatia corporal,
quase que uma coisa que pra gente seria meio telepática então tem algumas respostas
fisiológicas do nosso corpo que eles atribuem que elas tenham significado então, olha um exemplo.

(43:57):
Tem um termo, eu não me lembro agora como que é a palavra, é muita palavra diferente,
é isis, isitisis, é uma palavra meio diferente, que ela basicamente está refletindo o seguinte,
a transpiração que a gente tem nas axilas, mas imagina você está paradão,
não está fazendo exercício físico nem nada, e você começa a transpirar.
A interpretação que eles têm disso é de que essa transpiração que você está

(44:21):
tendo é em função de um outro que está chegando.
Então meio que você está conseguindo entender a chegada de alguém pela tua transpiração
por isso que chama essa questão de uma empatia corporal que pra gente é meio telepática,
é mística a ideia é mística, mas é uma ideia muito curiosa, porque é você conseguir

(44:45):
se conectar com alguém meio de um sinal é uma interpretação é antes da pessoa
chegar ou quando a gente está chegando?
Não, ela nem vai chegar necessariamente ele acredita que tem alguém chegando
eles tem várias coisas nessa linha uma delas é isso que é essa ideia desse.

(45:06):
É uma coisa assim que é o do suor e a outra que eles tem que é uma coisa meio
que uma conexão telepática que pra ele se dá pelo sonho,
então por exemplo numa das descrições que o o Lohmann faz, uma das pessoas do
grupo comentou com eles que quando você sonha com alguém,

(45:30):
essa outra pessoa está tendo o mesmo sonho ela está com você a gente também
tem essa crença o pessoal fala a mesma coisa você e o pessoal achando que se encontram em sonhos,
e tem também assim minha orelha esquerda está vermelha está esquentando,
falando do áudio então são essas tentativas que é interessante porque tem uma

(45:51):
discussão de que eu não consigo ler o outro mas tem ao mesmo tempo essas tentativas
um pouco místicas e um pouco baseadas na observação do corpo na mudança de temperatura,
na sudorese na frequência cardíaca pra tentar entender um pouco as relações
essa sudorese social existe isso, quando eu vou dar aula por exemplo eu sempre
você começa a falar e é a questão do.

(46:16):
Claro da ansiedade social leve todo mundo vai ter, desafio geralmente é a axila esquerda A sua?
Quer dizer que está essa contúlia dos caras aí O cara com a sovaquera grande
Está chegando a galera aí Estão-me sudoresos O cara suando sovaquera,
Fico pensando só Mas é interessante Eu fico pensando aqui uma questão séria

(46:39):
agora Tirando a sovaquera e tudo mais.
Essa é a percepção da opacidade mental novamente, eu não fico pensando se não
vou questionar o trabalho dos antropólogos mas de que maneira até essas culturas
entendem quando alguém fala assim, cara, vocês não conseguem,
interpretar um pouco a mente do outro e de que maneira o cara vai entender que isso seria...
Aí algumas pessoas tentaram fazer, por exemplo, na Samoa teve um teve vários,

(47:03):
mas teve um, por exemplo, que ele fez um estudo que ele tentou fazer aqueles
estudos de falsa crença. Sim, legal.
Tentou fazer teoriadamente e com ele levou, ele fez uma adaptação daqueles testes, o CupTask, né?
O CLN, um desses testes e tal. E aí ele levou pra fazer estudo de falsa crença com eles.

(47:24):
E aí ele foi fazer com as crianças samuanas, né? Ele foi pra Samoa pra fazer
o teste. Achou a mesma coisa? Não. Ué.
Existe uma compreensão mais tardia de falsa crença.
Aí eu vou levantar essa batata. Então, levantar a batata.
Porque na psicologia ocidental, com estudos em vários países,

(47:44):
a crença é que nós desenvolveríamos, teoricamente,
mais aos quatro anos, com esses testes de falsa crença, mas agora aparece um
bocado de pesquisa nos últimos 10, 15 anos, vendo que, na verdade,
isso começa muito antes, com dois anos.
É porque a forma de fazer a pergunta não era aquela forma que chegaria...

(48:06):
Então aí começa até a discussão. Uma das discussões, por exemplo,
que esse pesquisador trouxe é que talvez essa ênfase na opacidade na mente atrase o processo.
Então, você já tem culturalmente uma ideia de que eu não tenho como saber o que o outro...

(48:26):
E aí talvez isso atrase um pouco esse desenvolvimento de uma habilidade como
essa de detecção de falsa crença, teoria da mente e tal.
Mas ao mesmo tempo é isso que você falou, tem uma série de questões relacionadas
ao tipo de avaliação, ao tipo de pergunta tarefa, explicação que se dá.
Eu só pensava assim, se o cara em nossa cultura ocidental, que temos a linguagem

(48:50):
já assim, que temos isso em comum a gente consegue perguntar pra uma pessoa
de qualquer país e ela vai ter uma compreensão mais próxima do que você perguntar
pra pessoa que tem uma cultura diferente,
que usa outros termos tem outras concepções se nessa cultura da gente com uma
série de estudos em vários países, se a gente chegar a essa conclusão agora,
depois dos últimos 10, 15 anos, ou seja, bem recente, pra falar,

(49:11):
não, bicho, não é com 4 anos não, é com 2, na verdade.
Porque os testes que eram feitos... Eles acharam umas crianças com 8,
12 anos que ainda não tinham.
Aí, dá uma samoa? É. Então eu tô achando que é questão de linguagem,
tô achando que é o jeito de perguntar, e também, certamente,
pode ser questão de culturais.
É por isso que a gente cada vez mais precisa juntar psicólogos,

(49:31):
antropólogos e fazer...
Pra ter uma compreensão melhor desses fenômenos porque assim,
olha, se for se for cultural tem um peso enorme, você imaginar que o simples
fato de você ter uma interpretação diferente sobre o que é a leitura do outro,
muda numa habilidade cognitiva como essa o peso é muito grande.

(49:54):
Mas você pega assim, por exemplo, o controle de caçador-conetor,
vou falar um criança de 12 anos, vocês no caso são boas a nuance que se tem
de você ter um processo de caça e coleta que você tem uma caça em grupo isso
exige um nível de empatia cognitiva,
então assim, as vezes o cara vai fazer um teste do copo lá e o cara não acha
isso, fala assim, ah, não conseguiu mas se ele fosse observar um movimento em

(50:15):
grupo, por exemplo, de uma caça talvez apareça isso,
talvez é a forma como se adaptaram foi adaptado o teste não sei te falar que
eu não vi tudo aqui, mas eu acho que assim o estudo,
ele é relativamente bem feito por exemplo, que eu estou trazendo mas eu concordo
100% com você, com essa crítica porque não teve uma adaptação transcultural tão boa eles,

(50:40):
pecaram um pouco nessa história toda, um pouco diferente daqueles estudos feitos com jogos econômicos do.
Pessoal que eles coletaram Peru, coletaram um monte de lugares,
fizeram uma adaptação muito boa dos testes econômicos e aí você consegue ver
alguns padrões tem diferenças, tem lugares que tem formas de jogar um pouco diferente de,

(51:05):
e o altruísmo é manifestado um pouco diferente mas tem alguns padrões,
nesse caso aqui chama bastante atenção,
porque tem um atraso importante na teoria da mente eu acho eu acho estranho
porque imagina assim, que seja uma habilidade, novamente tem um caráter universal,
nessa capacidade de compreender o outro, porque qualquer grupo que tem habilidade

(51:27):
de ação coletiva ele deve ter um grau pra conseguir entender minimamente mas é engraçado,
porque aí se a gente for pegar vamos sair da Samoa e ir pra outro lugar, né? Bora, vamos viajar.
Vamos viajar mais. Mas a gente tá viajando só nesses lugares bonitos e tal Mas
vai pra onde é que tem mais, né?
Um mar bonito um mar bonito, um peixinho bom Se a gente for,
por exemplo, pra juntar com essa história pra um grupo agora que são dos Iapes, na cultura deles.

(51:52):
Eles, inclusive e aí por isso que pode ter um peso cultural,
mas não na mudança da habilidade, mas na forma como ela é manifestada.
Porque olha só nos Iapes que é outro grupo, não é o do Samoa mas é outro grupo,
mas olha só uma coisa interessante nos IAPs é valorizado o segredo, o que quer dizer isso?
A ocultação, a privacidade e isso acaba limitando o que?

(52:14):
Limitando exatamente a própria manifestação de empatia, porque é valorizado
você garantir a sua privacidade, a sua vida íntima.
Mas vê só então se a pessoa garante privacidade e segredo é porque ela sabe
que isso é capacidade de viver.
Exatamente, isso então Então, e aí que começa a ser bem interessante.

(52:34):
E aí eles vão ter também várias questões, vários termos que vão remeter também
à preocupação. Compaixão é igual aos outros.
Então, muitas vezes essas questões, elas têm, obviamente, um peso cultural,
mas tem alguns fatores que parecem bem comuns.
É só a forma de abordar. Certamente, assim, é legal você pensar nessas coisas.
A gente fala assim, tá, compaixão é uma coisa, amor é outra,

(52:57):
empatia é outra, empatia de vítima cognitiva, a gente tem essa visão estruturalista
na ciência nos conceitos e é uma visão bem analítica da coisa vai quebrando
em detalhes em dimensões,
que é interessante interessante,
mas às vezes perde um ponto interessante que essas culturas têm que,
cara, às vezes acho que talvez tenha uma base muito parecida,

(53:18):
todas as emoções esses comportamentos, e você fala assim não tem empatia,
mas tem coisas muito parecidas a gente só não sabe perguntar só não sabe perguntar,
inclusive até pro comportamento de alguma dessas tribos, os caras eram muito
mais empáticos que a gente alguns se deram bem mal por causa dos barapãs os
spawns invadindo a casa da galera exatamente.

(53:42):
É isso bem interessante, gostei dessa viagem gostou?
Gostei bastante e saiu de graça, né? a gente foi lá pros pacíficos,
navegou num monte de ilhas enfim o pensamento é uma maravilha é uma maravilha
tem aquela música Cidade Negra tem uma música que fala sobre isso,
Você esqueceu. Eu esqueci. Mas você sabe que ela fala sobre isso.

(54:03):
Fala sobre uma coisa, sobre o pensamento.
Eu não vou arriscar falar o que você tá pensando, porque eu acho que você tá meio opaco.
Tá, tá, eu tô pra mim mesmo, né?
Eu tô opaco por conta do vírus. É a sucesso de secreção na cabeça.
Mas muito bom, Gabriel, muito bom. Mas é isso aí. É isso aí.

(54:26):
É, essas questões são bem importantes.
Essas questões trazem muito o desafio atual da própria psicologia,
que é fazer uma psicologia pra além das questões ocidentais, né?
Mas ao mesmo tempo, integrar com os estudos antropológicos, enfim, né?
Acho que tá faltando essa troca pros dois lados, né?

(54:47):
Pro lado da psicologia entender os estudos etnográficos de uma forma melhor
e ao mesmo tempo essa questão que a gente tem de experimentação e de ter um
construto. É uma outra questão de paradigma.
Novamente, a gente passou um tempão na ciência vindo de sendo produzida em uma
região do mundo e trazendo a ideia de que eles sabiam pensar,

(55:09):
eles sabiam fazer ciência e o resto não.
Tanto que essa visão de que o animal era inteligente e no sentido de ciência,
que o porco branco era mais inteligente.
Isso é uma visão completamente... Exatamente.
E você começa a mudar a pergunta. A gente olha o fenômeno e você começa a ver
que na verdade Os animais são muito inteligentes. Exato.
É mais que a gente. Nível de comunicação, de linguagem.

(55:32):
Interessante isso. Muito bom, Gabriel. Obrigado, Borges. Gostei. Welcome back.
Obrigado, Luiz. Estamos de volta, viu? Valeu, pessoal. Até a próxima. Valeu, abraço.
Music.
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